segunda-feira, 14 de agosto de 2017

8. A Menina e a Rosa Vermelha

- Você não se cansa de parecer tão frágil? – perguntou a Menina, delicadamente.
- E isso é um problema? – retrucou a Rosa Vermelha, gentilmente.
- Não sei dizer ao certo... Mas me parece perigoso ser tão frágil.
- Isso porque vivemos em um tempo de brutalidades, Menina. Por isso a delicadeza parece um defeito. Mas é justamente o contrário: a fragilidade é fruto de muito trabalho.
- Mas qualquer pessoa pode desmanchar suas pétalas com o menor descuido...
- É verdade. Contra violência não há diálogo possível, senão a violência. Por isso nós, rosas vermelhas, temos nossos espinhos.
- Para furar dedos violentos?
- Para nos proteger e garantir o espaço que precisamos para desenvolver nossa fragilidade. É com ela que nós, rosas vermelhas, acolhemos as pequenas coisas do mundo, suspiros, olhares, intenções, e por isso, podemos ser um símbolo-gesto do amor. É nossa fragilidade que nos permite perceber os outros seres delicados, as outras existências frágeis que fazem a vida, e por isso, podemos ser um símbolo-gesto de uma revolução.
- Tudo a partir da fragilidade?
- Tudo a partir da fragilidade. Quando alcançamos o máximo da nossa delicadeza é quando realizamos o máximo da nossa potência! Esse é o momento em que nós, rosas vermelhas, exalamos o máximo do nosso perfume.
- Você é mesmo muito linda! – respondeu a Menina, com admiração. – E infinitamente forte na sua fragilidade. Gratidão por isso.
E se despediram a Menina e a Rosa Vermelha.
Naquela noite, a Menina fez uma lista no seu caderno, com todas as suas fragilidades. Era uma lista grande. Depois, foi dormir. Morrendo de orgulho de si mesma e de todas as suas delicadezas.

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

7. A Menina e o Rato de Esgoto

- Mas você não tem muitas doenças? – perguntou a Menina, sem conseguir esconder seu receio.
- Sim, diversas. Só não sei o nome de todas. – respondeu o Rato de Esgoto, com naturalidade.
- Isso não é muito perigoso?!
- O suficiente, mas nada que fuja da normalidade de qualquer uma das criaturas que vivem nas profundezas da cidade. Minhas doenças são tão perigosas quanto as doenças de um cachorro sarnento, ou de uma pomba de praça. Somos iguais em doença.
- E em que vocês são diferentes? – disse a Menina, já com menos receio.
- No ódio. Somos diferentes porque recebemos mais ódio da humanidade do que qualquer outra das criaturas do submundo. Um cão sarnento vez ou outra ganha um afago, as pombas ganham migalhas de pão apesar da sua condição. Mas para nós, ratos de esgoto, só são oferecidos gestos de ódio.
- E por que isso acontece? – questionou a Menina, aflita.
- A humanidade não precisa de muitos motivos para cultivar o ódio. Ao contrário, precisa dele. O ódio é o motor de muitas das realizações da espécie humana.
- Que coisa terrível...
- Eu prefiro pensar que é uma condição. – respondeu o Rato de Esgoto. – Sabemos que em nós, criaturas do submundo, se deposita o ódio da humanidade que caminha tranquilamente na luz do dia. Por isso, sobrevivemos com cuidado dos restos que conseguimos fisgar. Mas lá embaixo, longe dos olhos dos homens e mulheres, temos nossa paz e nosso império. Lá, entre canos de esgoto e toda sorte de lixos e dejetos, fazemos nossa vida, com nossas festas, nossos ritos, nossos acasalamentos.
- O mundo dos ratos e ratas de esgoto...
- Nosso mundo, que persiste, a despeito da humanidade com seu ódio. Bem, Menina, preciso ir. Gratidão por sua humildade.
- Eu que fiz uma ideia errada de você. – disse a Menina, sem receio algum.
- Então não tem mais medo de mim?
- Não, nenhum.
- Pois deveria, Menina. – finalizou o Rato de Esgoto. – Deveria.

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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

6. A Menina e a Velha Árvore

- Então você já viu passarem muitos anos? – perguntou a Menina, com admiração.
- Alguns... – respondeu a Velha Árvore, afetiva – Mas estou longe de ser a árvore mais velha desse parque. Não muito longe daqui, existe um jequitibá de mais de 300 anos.
- E como é viver tanto tempo?
- Não há nisso nada de muito especial. Já vivi muitos invernos e vi mudar o ecossistema diversas vezes. Em algumas noites, sonho com tempos antigos, quando as florestas ocupavam todas as partes e a espécie humana não tinha essa fome tão voraz de agora.
- Puxa... Que incrível!
- É como eu disse, não existe mérito algum em viver mais ou menos anos. Se puder aprender alguma coisa, foi isso: eu, que sou uma árvore, tenho o exato mesmo tempo que você, Menina, o tempo de uma vida.
Um silêncio antigo assoprou pelo parque. A Menina não disse palavra. A Velha Árvore continuou.
- Uma caverna leva 200 mil anos só para nascer. As estrelas vivem bilhões de anos, antes de engolirem a si próprias numa gigantesca explosão de fogo. Algumas borboletas vivem uma semana. E todos vivem o mesmo, Menina, o tempo de uma vida. Nem mais, nem menos.
A Menina continuou quieta. Escutava a vida que acontecia. E abraçou o troco da boa anciã, profundamente.
- Mas o que te entristece, Velha Árvore? – perguntou a Menina, quebrando o silêncio.
- Pensar nas vidas que são cortadas antes da hora, Menina. – respondeu, profundamente. – Pensar nas vidas que são cortadas antes da hora.

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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

5. A Menina e o Leão do Circo

- Não te maltratam demais por aqui? – perguntou a Menina ao Leão do Circo, alarmada.
- Nada muito fora do comum. É verdade, às vezes o domador exagera, é um pouco deprimente passar a maior parte do tempo dentro de uma jaula, mas pelo menos tenho comida todos os dias, banho toda semana. Alguns trapezistas não chegam a tanto. Em um circo, Menina, todos cumprem com sua cota de maus tratos.
- Mas o trapezista é livre para ir, não vive em uma jaula.
- Livre para ir aonde, Menina? – perguntou o leão com ironia. – As criaturas do circo ao circo pertencem. Nós, leões do circo, temos a carne feita de lonas e trapézios, nossos rugidos são os olhos do público brilhando de espanto! Nós, como todos os seres deste lugar, somos comprometidos com o picadeiro.
- Então vocês estão presos ao circo?
- De certa forma... Mas me diga, Menina, qual ser que respira que não carrega suas prisões? Além disso, você esquece do mais importante: o espetáculo! É por ele que ficamos!
- Como assim?
- É difícil dizer... Na maior parte do tempo, viajamos de maneira precária, enfrentamos a fome e o frio. Os espetáculos tornam-se repetitivos, tediosos, com os mesmos estalos de chicote, as mesmas marcas de subir e descer da cadeira, o mesmo rugido de efeito... Mas às vezes... Às vezes, em algumas apresentações, alguma coisa se passa e as almas transbordam! Nesses momentos, fazemos no picadeiro um instante de vida!
- E é por esse instante que vocês do circo passam por tantas provações?
- É por esse instante que o circo permanece vivo. E é por ele que permanecemos no circo. O show tem que continuar!
- O show tem que continuar.
E se despediram a Menina e o Leão do Circo, que já começava a se preparar para o show daquela noite.
A Menina ficou para o espetáculo. E entre lágrimas e sorrisos se encantou com a contorcionista, vibrou com os trapezistas, temeu o leão com seu rugido de rei dos animais.
E foi embora, transbordada de vida.

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4. A Menina e a Formiga Operária

- Você nunca tem vontade de fazer outra coisa? – perguntou a Menina a Formiga Operária.
- Não, nunca. – respondeu sem parar seu árduo trabalho de carregar folhas gigantes até o formigueiro – Por quê? Eu deveria?
- Não sei... Suponho que sim. Eu tenho vontade de tantas coisas... – respondeu a Menina, francamente.
- Isso acontece porque você vê o mundo do seu ponto de vista, Menina. Os humanos são cheios de vontades contraditórias. Nós, formigas operárias, não temos dúvidas: cumprimos com nosso dever de formigas.
- Sem descanso?
- Sem descanso.
- Mas por que tanto trabalho?
- Você teria coragem de pisar em um formigueiro?
- Não... – respondeu a Menina, sem entender muito bem.
- Consegue imaginar uma praça ou um parque sem formigas?
- Não.
- Ficaria tranquila se soubesse que sua casa foi tomada por formigas?
- Não!
- Viu? Percebe a dimensão do nosso poder? Poder das formigas, nosso poder. Nós, que somos tão pequeninas.
- Então vocês trabalham para ter poder?
- Não, Menina, trabalhamos porque é com o trabalho que construímos nossa existência, é com trabalho que persistimos no tempo. Com nosso esforço e suor enfrentamos a vida, e vencemos.
- Sem nunca descansar?
- Sem nunca descansar.
- Entendo completamente. – finalizou a Menina, com seriedade. – Desculpe tomar o seu tempo. Você deve mesmo ter muito o que fazer.
A formiga operária sorriu e rapidamente entrou no formigueiro, sem se despedir, carregando sua folha gigante em seu interminável trabalho de formiga.
Depois daquela conversa, a Menina ficou inquieta. Andou de um lado para o outro a manhã inteirinha, com uma pergunta lhe martelando a cabeça, insistentemente:
“Quando dormem, com o que sonham as formigas?” 

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